10 Maio 2017

Sokolov: Mozart, Beethoven

O espaço é curto e não sou poeta para exprimir muito em poucas linhas. Digamos que mais uma vez o pianista Grigory Sokolov chegou, tocou e triunfou. Com um repertório vastíssimo, que vai de Rameau a Stravinsky, tem a fama de ser o maior pianista da atualidade — e eu acredito. Curvado pelos anos (fizera 67 na semana anterior), cabeça coroada pelas cãs, aproxima-se do piano, começa a tocar e somos imediatamente transportados para outro mundo. A penumbra da sala (que se estende ao palco) ajuda à concentração mútua. Sokolov desdenha o aplauso e não permite interrupções entre peças. A plateia — e presumo que também o balcão — transforma-se num vasto divã freudiano. A música vem cheia de interrogações e nós mergulhamos no nosso eu para reagir mentalmente. Milagre maior: o público não tuge nem muge, fascinado com a dedicação do músico à música. Nada mais conta. No programa, duas sonatas de Mozart (KK. 545 e 457) intercaladas pela “Fantasia em dó menor, K. 475”, seguidas de duas sonatas de Beethoven (nº 27 e 32). Mozart maduro capaz de ombrear com um Beethoven mozartiano. Romântico e clássico de mãos dadas. Soa tudo autêntico, mas diferente (o pianista aprofunda, mas não se repete). À claridade da execução e economia no uso dos pedais soma-se a energia. Pode ser mercúrico ou diabólico sem perder o controlo. Um concerto muito especial pois celebravam-se os 50 anos da sua primeira apresentação (14.4.67) em Lisboa, no Tivoli, com a Orquestra Sinfónica Nacional sob a direção de Silva Pereira. Grisha contava então 17 anos e vencera no ano anterior o Concurso Tchaikovsky em Moscovo. Nessa altura tocara em extra 3 Danças da “Petrushka” (Stravinsky). Haverá coisa mais complicada? Desta vez brindou-nos com seis extras: um “Momento musical” de Schubert, dois “Nocturnos” de Chopin, “L’indiscrète” de Rameau, “L’arabesque” de Schumann e um “Prelúdio” de Chopin. A emoção continua a reverberar na minha cabeça.

 

Jorge Calado

Expresso – 6 de maio 2017

Atualização em 10 Maio 2017