10 Maio 2017

Etéreo, místico e humano no adeus de Mälkki

Para o derradeiro programa do seu triénio como maestrina convidada principal da Orquestra Gulbenkian, Susanna Mälkki escolheu dois compositores com os quais tem muitas afinidades: Richard Strauss (Morte e Transfiguração) e Jonathan Harvey (Messages, com o Coro Gulbenkian). E ainda Wagner, cujas óperas muito anseia começar a dirigir. No final, Susanna dizia-se muito satisfeita com o programa, ouvido na ordem (1) Harvey- (2) Wagner-Strauss. Concordando, pensamos contudo que uma obra antes do Harvey ajudaria a instalar o ambiente certo para escutar Messages. E aí, porque não Per Norgard: os tributos a Sibelius ou a Lutoslawski (para cordas), ou Twilight, desse compositor consagrado em anos recentes e ainda tão pouco ouvido em Lisboa? E porque não também o Prelúdio do Parsifal, além dos dois momentos do III Ato ouvidos? Dito isto, pudemos confirmar o quão notável é a obra Messages, estreada pela Filarmónica de Berlim e pelo Coro da Rádio de Berlim em 2008, embora a interpretação do Coro tenha ficado algo aquém da expectativa e o equilíbrio relativo coro/orquestra (que se desenvolve em oscilações) nem sempre tenha sido o ideal. Na segunda parte, a Orquestra não “entrou” logo no mundo de Montsalvat congeminado por Wagner no Parsifal, mas quando o fez não mais o abandonou. Essa “identificação” passou inteira para o poema sinfónico tão maduro de um Strauss de apenas 24 anos, onde pudemos escutar uma Orquestra Gulbenkian com uma pureza e acerto de emissão e uma opulência sonora tais, que fizeram desta uma soberba interpretação.

 

Bernardo Mariano

8 de maio 2017

Atualização em 10 Maio 2017